O jejum, a oração e a esmola

Comentário ao Evangelho do dia (Mt 6, 1-6;16-18) feito por :

Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona, norte de África, e Doutor da Igreja
Sermão 150, 6

O jejum, a oração e a esmola

Os epicuristas, que não esperam vida alguma depois da morte, que não esperam outra coisa senão os prazeres da carne, dizem assim: «comamos e bebamos, que amanhã morreremos» (1Cor 15,32). Mas os cristãos, acreditando de verdade numa outra vida depois da morte, uma vida muito mais feliz, não digam «comamos e bebamos, que amanhã morreremos». Sem esquecer que amanhã morreremos, digam antes «jejuemos e rezemos, que amanhã morreremos», e esse jejum que aqui refiro vos sirva, em terceiro lugar, como preceito irrecusável e indescurável para assim matar a fome a quem é pobre. Se não puderdes jejuar, dai antes de comer àqueles cuja saciedade vos alcançará misericórdia, e digam então os cristãos: «jejuemos, rezemos e demos aos pobres, que amanhã morreremos».

Mas exijo ainda outra coisa, uma terceira condição, pois não quero silenciar aquilo que é necessário observar acima de tudo: que o vosso jejum sirva para saciar a fome do pobre. Se não podeis jejuar, aplicai-vos ainda mais a alimentar aquele cuja fome apaziguada vos obterá o perdão. Eis, pois, aquilo que os cristãos devem dizer: «jejuemos, rezemos e demos aos pobres, que amanhã morreremos».

Um dejeto que Deus quer

Qualquer homem pode ser santo se o quiser, mesmo se, exteriormente, aos olhos do mundo, ele não é mais do que vício e lama.

Quando, durante uma vida inteira, os demônios do seu coração lhe disputaram o ser e esse homem se precipitou sucessivamente, com toda a violência dos seus apetites, em direção às inúmeras miragens do orgulho e dos instintos, em direção aos fantasmas enganadores e mentirosos que são as paixões humanas, vai chegar uma hora em que ele se sente acabado.

Está gasto, aniquilado, vazio.
Essa ruína, esse ladrão, esse bêbedo, esse depravado, irremediavelmente entregue a seu vício a não ser que haja um milagre da graça, quem se ocuparia ainda dele?
Só Deus pode acolher esse destroço. Deus, e só Deus, porque ninguém descerá demasiado baixo aos olhos de Deus!

Esse lixo, esse dejeto, esse rebotalho que vocês, homens, já não querem, que não quer já nada de si mesmo, dêem-no a mim, diz o Eterno, e que ele aceite apenas, humildemente, reconhecer a sua miséria, agarrá-la e lutar. Então, para mim, essa vida de vergonha e de ignomínia aos olhos de todos, Eu a consumirei como incenso.

Os feridos da vida, os fracos, os alcoólicos, os drogados, os dependentes de todos os tipos, os pobres que aceitam sofrer a sua miséria e lutar apesar de tudo, abrem-se à misericórdia e entrarão, como o bom ladrão, no Reino de Deus, antes dos puros que depositam em si mesmos a confiança, contando com suas virtudes naturais. “Os primeiros serão os últimos; os últimos serão os primeiros” (Mt 19, 30).

Escrito por Pedro Veiga (Comunidade Católica Shalom – Missão RJ)

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